Gosto muito de ler os blogs de outras famílias ou de futuras famílias homo, para adquirir informações, analisar suas experiências, mas principalmente saber o que pensam e como agem diante de situações que para mim ainda suscitam dúvidas.
Muitos podem achar o que irei relatar uma besteira, e talvez o seja, mas se estivessem no meu lugar poderiam ter as mesmas dúvidas. Tenho vergonha de comentar sobre essas minhas "fragilidades" com outras pessoas, e às vezes acho que não devo comentar porque dariam saídas ou explicações superficiais, que em nada acrescentaria.
Pois bem, me assumir lésbica para amigos e família não foi algo difícil, foi algo quase instantâneo, talvez porque eu soubesse que me amavam e portanto não me excluiriam das suas vidas. Mas tenho um grande problema em assumir minha identidade no trabalho. Isso me incomoda muito, é uma barreira que não consigo transpassar, mas sinto que necessito. Até porque não sou uma, sou duas, sinto-me duas e já já seremos três. E quando isso acontecer, quero me sentir livre. Escrevo nesse momento com a garganta presa, de quando se quer e ao mesmo tempo não se quer deixar as lágrimas escorrerem. Não sei com agir diante disso. Sou extremamente feminina e ainda não encontrei até hoje um gaydar que acertasse em relação a mim.
Mama B, ao contrário, é masculinizada, e fica muito fácil para ela ser o que é, pois não precisa falar, ela é, simplesmente é. Todos sabem, seu patrão sabe e interage conosco como uma família. Quando vamos a uma loja ou precisamos negociar algo, somos tratadas como casal, por verem nossas alianças e também porque é nítido.
Mas no trabalho, além dos dois colegas mais próximos, acredito que ninguém saiba de mim. Incomoda-me saber que as pessoas não sabem que sou gay. E daí me pergunto se todos precisam saber que sou gay e casada com outra mulher, desde funcionários a usuários assíduos da instituição. Seria necessário?
Talvez a resolução seria usar indefinidamente uma camisa com os escritos: Sou lésbica, sou casada com outra mulher. Ou desenhar em letras garrafais essas informações no meu facebook. O boato se espalharia.
Mas por que me incomodo tanto com isso?
Quando alguém me pergunta se sou casada, se tenho alguém....e esse alguém é do meu trabalho, não sei como agir. Como você agiria? Essa não é a pergunta correta! Imagine como se sentiria e consequentemente agiria se tivesse tudo o que tenho, fosse tudo o que sou. Não estou falando em bens materiais ou diplomas, isso pouco importa, estou falando da história da minha vida. Realmente, nessas horas gostaria de ser adepta dos cabelos curtos e tênis. Seria mais nítido? Com certeza não haveria tantas perguntas.
Nessa semana fui convidada para uma festa de aniversário da filha de um colega de trabalho. Foi a primeira vez que isso aconteceu, visto que estamos morando aqui há 6 meses apenas. Pois bem, falei a ele que levaria outra pessoa. Quando lá cheguei, apresentei Mama B, percebi que muitos olharam com ares de análise, mas isso é normal visto que é necessário alguns segundos para identificar se ela é mulher ou homem e isso acontece com frequência em qualquer lugar, já estamos acostumadas e isso não me incomoda de forma alguma. Sei que minha esposa é linda e andrógina, adoro que ela seja assim, me orgulho de ser sua esposa. Meus colegas interagiram com ela, foi normal...eu sabia que seria normal e eu queria inserir a Mama B no meu ciclo de amizades do trabalho. Porquê? Porque quero ser como todas as outras pessoas. Porque a Mama B precisa disso. Porque em um futuro bem próximo não seremos somente duas, seremos três...e nosso filho precisará frequentar festas de aniversário, viver normalmente.....e nós duas estaremos lá.
Meus parabéns mais sinceros se você não precisa mais ter este tipo de preocupação simplória, ainda estou tentando passar esse nível do jogo.
Abraços da Mama C